Por muito tempo, o autismo foi tratado como uma condição exclusiva da infância — e, em especial, de meninos. Essa visão limitada se reflete em campanhas, diagnósticos e políticas públicas que negligenciam uma verdade fundamental: pessoas autistas crescem, envelhecem e continuam enfrentando desafios que persistem invisíveis à sociedade.
A infantilização das pessoas no espectro se manifesta na ausência de dados sobre a população adulta, na escassez de serviços especializados para adolescentes e adultos, e na invisibilidade de suas pautas em políticas públicas. Esse "apagamento" contribui diretamente para diagnósticos tardios — principalmente entre mulheres — que, após anos de sofrimento psicológico e exclusão social, finalmente recebem um nome para experiências de vida que sempre pareceram fora do lugar.
No mercado de trabalho, o problema vai além da contratação. O capacitismo estrutural, a ausência de políticas afirmativas e a falta de ambientes inclusivos dificultam tanto o ingresso quanto a permanência de pessoas autistas em empregos condizentes com suas habilidades. A falta de compreensão sobre neurodivergência leva à alta rotatividade, adoecimento mental e subemprego.
Na educação, a falha é sistêmica. A transição da escola básica para o ensino técnico ou superior raramente conta com apoio acadêmico adequado. A formação de professores sobre autismo adulto é quase inexistente, comprometendo o desenvolvimento pessoal e profissional dessas pessoas.
Nos relacionamentos afetivos e familiares, persistem estigmas. Adultos autistas são frequentemente tratados como "eternas crianças", o que os priva de autonomia, vida sexual ativa e conexões sociais mais complexas. A sexualidade, por exemplo, segue sendo um tabu ignorado por políticas públicas e debates de saúde.
A saúde mental também merece atenção especial. Ansiedade, depressão e burnout são comuns entre adultos autistas, especialmente devido ao esforço constante de se adaptar a padrões neurotípicos. O "mascaramento social" — tentativa de parecer neurotípico — cobra um preço emocional alto. Faltam profissionais preparados e protocolos adequados para acolher essa população de forma digna e eficiente.
As políticas públicas, por sua vez, ainda operam com foco na infância e com viés assistencialista. Iniciativas voltadas à vida adulta e ao envelhecimento autista são raras. Pouco se discute, por exemplo, o que acontece com uma pessoa autista após os 50 anos — como garantir sua autonomia, saúde e qualidade de vida na terceira idade?
É urgente romper com a visão limitada e infantilizada do autismo. Reconhecer que o transtorno acompanha a pessoa ao longo de toda a vida é o primeiro passo para promover inclusão real. Isso passa por políticas públicas intersetoriais, serviços especializados, respeito à diversidade neurológica e, sobretudo, por dar visibilidade às histórias de adultos autistas que há muito tempo foram silenciadas.
A inclusão verdadeira só será alcançada quando deixarmos de ver o autismo como um capítulo da infância e começarmos a enxergá-lo como parte integrante de trajetórias completas — da infância à velhice, com direitos, dignidade e voz em todos os momentos da vida.
ABCD NEWS