Em plena Tiradentes, cidade histórica de Minas Gerais, o feriado de 21 de abril ganha um peso especial quando confrontado com a realidade atual dos impostos no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) mostram que, em 2025, o brasileiro precisou trabalhar 149 dias apenas para pagar tributos, o equivalente a 40,82% da renda média. São praticamente cinco meses de salário destinados a impostos, taxas e contribuições antes que o cidadão comece, de fato, a trabalhar para si mesmo.

As projeções para 2026 apontam para um cenário ainda mais pesado: algo em torno de 153 dias de trabalho apenas para pagar impostos, empurrando essa “libertação tributária” para o início de junho. Em 2024, eram cerca de 148 dias. Em pouco tempo, avançamos na direção contrária do que muitos esperavam: em vez de aliviar, a carga tributária segue crescendo.

Quando lembramos que, na época de Tiradentes, um quinto — cerca de 20% — já era motivo de revolta contra a Coroa portuguesa, o contraste com os mais de 40% atuais é inevitável. A bandeira de Minas Gerais traz a frase em latim “Libertas quae sera tamen” (“Liberdade, ainda que tardia”), símbolo da luta da Inconfidência Mineira contra a exploração colonial de 1789. Mas, diante da realidade tributária de 2026, fica a pergunta: que liberdade nós, brasileiros, realmente temos hoje?

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Não se discute aqui a existência dos impostos em si. Em qualquer país democrático, o Estado precisa de recursos para manter serviços públicos, investir em infraestrutura, saúde, educação e segurança. O problema é quando a conta se torna gigantesca de um lado e ineficiente do outro. Motoristas cruzam estradas esburacadas, como trechos da Rodovia do Aço (BR-393), no eixo entre Minas Gerais e São Paulo, enquanto seguem pagando IPVA, pedágios e uma série de taxas que, em teoria, deveriam garantir manutenção e segurança das vias. Muitas rodovias só oferecem boa qualidade quando entram em regime de concessão, cobrando pedágio extra do usuário, o que reforça a sensação de que o contribuinte paga duas vezes pelo mesmo serviço.

Na saúde, filas, demora por exames e falta de estrutura em muitos municípios. Na educação, escolas sucateadas convivem com dados de arrecadação bilionária. Quando o brasileiro olha para o que contribui e compara com o que recebe em serviços públicos, cresce a percepção de injustiça: o Estado cobra como país rico, mas entrega como país pobre.

Essa sensação de desequilíbrio também ajuda a explicar por que muitos profissionais qualificados, empreendedores e investidores buscam alternativas em outros países. Em vizinhos como o Paraguai, por exemplo, a carga tributária total gira entre 10% e 15%, com sistema mais simples e previsível, o que tem atraído empresas e pessoas em busca de menor custo e mais segurança jurídica. Cada brasileiro que vai embora não leva apenas patrimônio: leva conhecimento, inovação e capacidade produtiva — uma perda silenciosa de capital humano.

No plano individual, a pressão tributária se mistura a outras formas de limitação da liberdade econômica. Quem não paga o imposto do carro corre o risco de ter o veículo apreendido e leiloado por valor muito abaixo do mercado, perdendo o bem e ainda vendo o excedente ficar com o poder público. Pequenos empresários e MEIs, se não conseguirem manter tributos, taxas e obrigações em dia, podem ficar impedidos de emitir notas e trabalhar na legalidade, mesmo querendo produzir e gerar emprego.

Nesse contexto, a palavra “contribuinte” também passa a ser questionada. Até que ponto alguém contribui de forma voluntária, se a não quitação dos impostos pode resultar em sanções severas, perda de bens, bloqueios e restrições? A fronteira entre dever cívico e coerção econômica se torna cada vez mais tênue.

Ao mesmo tempo, o debate sobre liberdade não se restringe à carga tributária. Em diferentes momentos recentes, o Estado também interferiu na possibilidade de o cidadão buscar alternativas de tratamento, medicamentos ou produtos em países vizinhos, alegando riscos sanitários, regulatórios ou fiscais. Quando decisões assim priorizam arrecadação ou proteção de mercado em detrimento de acesso a soluções mais baratas e eficazes para a população, a discussão sobre qual é a verdadeira função do Estado — e para quem ele trabalha — volta ao centro da mesa.

Diante de tudo isso, o feriado de 21 de abril ganha uma leitura mais profunda. A data não precisa ser apenas um dia de descanso no calendário. Pode — e talvez deva — ser um convite à reflexão sobre a relação entre o cidadão e o Estado, sobre a qualidade do gasto público e sobre o equilíbrio entre direitos e deveres em uma democracia.

Se, no século XVIII, Tiradentes e seus companheiros se levantaram contra um quinto considerado abusivo, o que diria ele de um Brasil que exige mais de 40% da renda em tributos e ainda devolve estradas esburacadas, serviços precários e oportunidades limitadas? E se surgissem novos “Tiradentes” em cada estado em 2026 — não com armas, mas com informação, participação política, fiscalização e cobrança pública organizada?

Mais do que respostas prontas, o momento pede perguntas incômodas.
Que liberdade tributária, econômica e civil nós realmente temos?
Quanto do que pagamos volta em forma de qualidade de vida?
E até quando vamos tratar como “normal” trabalhar quase metade do ano só para pagar impostos?

Texto produzido para ABCD News com base em dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) e relatos da viagem a Tiradentes (MG).

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✍️ Texto: Rafael Rodrigues (@rafaelrodrigues.abc)
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